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O individualismo do voto


O individualismo do voto

POR MERVAL PEREIRA

19/08/2018 06:30

O debate sobre democracia e capitalismo ocorrido na mais recente reunião plenária da Academia Brasileira de Letras teve origem em palestra anterior do acadêmico Arno Wherling, presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, abordando a obra de Joaquim Nabuco – um dos fundadores da ABL – sobre a propriedade.

Líder abolicionista, Nabuco não separava a emancipação dos escravos da democratização do solo. O acadêmico Edmar Bacha, que preside a Casa das Garças no Rio, um dos principais thin-tank brasileiros, ampliou a discussão, trazendo uma tese polêmica de economistas dos Estados Unidos que propõem separar a propriedade privada do mercado, democratizando-a para reduzir a desigualdade de rendas, tese detalhada na coluna de ontem.

O cientista político acadêmico Candido Mendes trouxe sua contribuição numa palestra sobre a atual situação eleitoral brasileira, ressaltando quetudo indica que o Congresso não será renovado, o que reforça o desânimo do cidadão com a representação política.

Cândido Mendes lamentou que as questões sociais tenham perdido a prioridade,  e destacou o fenômeno que chamou de “individuação das candidaturas”, com os partidos, devido à  proliferação das legendas, perdendo o sentimento coletivo do voto e se transformado em reflexo do pensamento individual.

Ele ressaltou o impacto sobre a mocidade, sobretudo entre os de 16 a 23 anos. As atuais pesquisas mostram que a grande maioria votará em branco ou anulará seu voto, fenômeno que, para Cândido Mendes, caracteriza a demissão pela mocidade de intervir na vida política. Desprestigiar a ação política significa uma individualização das candidaturas, disse ele.  

A escritora e acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira avaliou que a individualização tem a ver com as novas tecnologias, que induzem a relações cada vez mais individualistas. Outro fator, segundo Rosiska, seria enfraquecimento das instituições de mediação. Os partidos políticos não refletem mais correntes ideológicas nítidas, e os sindicatos, por sua vez, sofreram mudanças na capacidade de coletivizar, em função também do novo mundo do trabalho.

O acadêmico Cícero Sandroni, escritor e jornalista, fez questão de destacar que a nossa democracia é muito falha, seria o que chamou de democracapitalismo, onde só ganham eleições aqueles que têm muito dinheiro ou serão corrompidos depois.

O acadêmico José Murilo de Carvalho considerou que as duas palestras mostram “a incapacidade de pensar, não digo a longo prazo, mas a médio prazo. Costumo dizer que o Brasil padece de um Alzheimer coletivo em relação ao passado, o futuro a Deus pertence, e ao presente, carpem diem. (aproveitem o dia)”.

O historiador lamentou que não saibamos incorporar à sociedade a massa marginal dos milhões de desempregados, e também dos milhões de não empregáveis, por questões de baixa escolaridade, com o processo da automatização que tirará perto de 20% dos empregos. “Temo que não teremos um futuro, podemos estar perdendo o bonde da história”.

O acadêmico Celso Lafer ponderou que há momentos “em que há motivação, outros em que as pessoas se recolhem. É o que está acontecendo hoje, as pessoas estão mais interessadas nas suas vidas privadas”. Como a democracia não garante a felicidade, “temos que lidar com a paixão do possível”, advertiu o jurista.

Lembrei então minha recente experiência de mais de um mês na Rússia cobrindo a Copa do Mundo. O sentimento generalizado é de satisfação com o governo Putin, à frente de uma democracia de fachada que limita a liberdade de expressão e reprime questões ligadas à sexualidade dos indivíduos.

Mas o sistema de transporte funciona, os hospitais são eficientes e bem equipados, a educação é de alto nível a ponto de pouquíssimos russos buscarem formação em universidades estrangeiras. São os sinais de que uma “democradura”, como definiu José Murilo de Carvalho, pode ser suficiente para os cidadãos, que já não encontram na democracia representativa um instrumento de seus anseios. 




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